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Sobre o valor

“One too many goals

That measure out your worth

To seek your weight in gold.”

The Next Time Around – Little Joy

 

 

 

O que é suficiente para medir o seu valor? Já ouvi muitos dizerem que valem o quanto têm, outros preferem valer aquilo que são. Há aqueles, contudo, que insistem em dizer que valem aquilo que sabem. Talvez eu tenha começado esse texto de forma equivocada. Talvez seja mais correto pensar em “O que é o valor do homem?” ou “O que é capaz de dar valor a uma pessoa?”.

 

Acho que se formos procurar com atenção pelo passado remoto, lá na Grécia antiga alguém já dizia que uns valiam mais que outros. Se sou instruído, valho mais. Se tenho bens, ainda mais. Não quero ficar aqui procurando as razões ou sementes sociais desse tipo de julgamento. Quero é deixar uma pulga atrás das orelhas, encostar o dedo nas feridas das nossas hipocrisias que nos estabelecem escalas de valores, e ainda questionar se isso tudo é objetivo ou apenas social.

 

Quando somos pequenos, ouvimos dos mais velhos que devemos ser bons, obedientes, solícitos e, de preferência, agradáveis às pessoas. Tudo isso pode se tornar uma grande confusão ao crescermos, afinal nessa fase temos que aprender a viver num mundo competitivo. E o que isto tem a ver com os conselhos da vovó? Se competimos, é porque tentamos fazer valer nossa voz, ganhar nosso espaço e ter reconhecimento. Para isso será impossível evitar o embate de vontades, o conflito real de interesses. Nem todos foram criados sob as mesmas regras familiares que nós, assim, os conceitos de bondade, solicitude e cordialidade assumem as mais diversas conotações para as pessoas com quem convivemos. Nesse cenário, será impossível ser agradável como a mamãe gostaria.

 

Espera aí, leitor, a mamãe gosta que você seja agradável, mas não que você seja um merda, um loser. Você tem que ser o fodão. Desculpem-me aqueles que se chocam com as palavras, mas elas não são minhas. Dr. Francisco D. da Veiga, em seu curioso O Aprendiz do Desejo, nos apresenta o dilema do fodão-merda, e foi daí que vieram as expressões de seu choque. Trazendo a uma linguagem mais branda – afinal, quem sou eu pra desobedecer às matriarcas e bancar o mal-educado? – você precisa ser forte, bom, bem-sucedido, esperto, bonito, inteligente, ou como sugeriria Darwin, o mais adaptado da sua espécie. Além disso, você precisa conquistar, pois um homem se mede por suas conquistas.

 

E voltamos ao ponto inicial, “um homem se mede por…”. Gastamos muito tempo de nossos dias pensando em como somos vistos, se somos respeitados, se nosso trabalho é reconhecido ou se as pessoas enxergam o quanto tivemos que dar duro pra chegarmos onde chegamos. Ué, o caminho que escolhemos não deveria ser pessoal? Então por que eu fico observando o que os outros dizem da minha trajetória? É isso! Tenho a impressão de que muito poucas vezes nos importamos realmente com o que fazemos ou o que pensamos a respeito de nós mesmos. Noto que faz parte do comportamento comum fazer as coisas esperando reconhecimento. Não como o interesseiro, mas como quem quer ser aceito e bem visto.

 

Eu não seria capaz de incitar, com isso, um comportamento de isolamento. Muito pelo contrário, talvez seja necessário conhecer-se para conviver de forma mais branda consigo e com o outro, o temível “outro”.

 

Já que passamos por essa história de trajetórias, também questiono o fato de sempre ter que saber onde o caminho vai levar. Obviamente todo caminho leva a algum lugar, mas as pessoas insistem em saber onde você quer chegar. Então, onde fica o prazer do caminho em si quando só se pensa na chegada? E não é possível estar realizado durante uma caminhada? Duvido que não. Pense na simples metáfora de duas cidades que distam mil quilômetros… não sou capaz de só enxergar partida e chegada, há mil quilômetros a serem descobertos e aproveitados, dezenas de cidadelas e lugares ainda não vistos. Pessoas diferentes e hábitos absolutamente estranhos ao meu mundo. Definitivamente, o destino final começa ao largar o ponto de origem.

 

Mais uma vez retomando a questão central, ainda não entendo por que eu teria mais valor do que uma criança numa rua de Mumbai. Ou por que o presidente da empresa em que eu trabalho vale mais que o bilheteiro do cinema a que vou toda semana. É claro em meu raciocínio que os bens passam, os cargos são substituídos, o corpo se desgasta e, com ele, o cérebro e boa parte do conhecimento adquirido. Indo um pouco mais longe, até as convicções são passíveis de mudança.

 

Peço sinceras desculpas a quem achou que eu abordaria o “viva à sua maneira, não perca a estribeira, saiba do seu valor” (deveria um autor ficar preso àquilo que agrada seus leitores?), mas acho mais honesto tentar fazer você pensar que essa história de ter um valor é, pelo menos, um pouco descabida. Com o passar do tempo, muito do que vemos e temos hoje ruirá. E aí eu pergunto: O que vai valer nesse momento?

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