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De sua presença

“Deus me perdoe, se é pecado
Mas eu queria ser fita
Só para andar na cintura
Duma cabocla bonita.”
Versos paraibanos

Abigail - 1947 - Di Cavalcanti

Abigail - 1947 - Di Cavalcanti

Nos olhos dela, um brilho encantador que faz as noites claras de outono parecerem a neblina de inverno. Um castanho profundo e intenso que faria uma certa cigana oblíqua e dissimulada de longas tranças parecer ainda mais pueril do que o fora. Emoldurando este olhar, uma face serena, de maçãs do rosto rosadas de sol e, em momentos particularmente inquietantes, enrubescidas por um acanhamento de que ainda duvido.

Seus cabelos longos e levemente ondulados parecem acompanhar a brisa mansa que de leve toca o mar em fim de tarde. Calma, quente, inesperada mas sempre oportuna. Nesses fios compridos, poderia perder-me e não querer pensar em retorno. Meus dedos os tocariam com a destreza de um artesão e os percorreriam com uma calma monástica.

Delineado de forma ímpar, o colo, que abriga os melhores aromas já percebidos, revela em sutileza a sensibilidade ao toque, ao beijo, ao calor e à gota d’água em noite de garoa. Basta uma delas e, num movimento discreto, ela me transporta ao céu (Prefiro não descobrir se isso tudo é intencional). Nele, o suor que gentilmente toma o espaço é néctar.

Ah, seu andar! Seu andar me encanta pela suavidade e pela certeza de que pode chegar onde quiser. Os movimentos leves de seus quadris parecem me embalar numa viagem eterna a uma terra onde o solo é fértil, a chuva farta e o sol nunca nos desaponta. Entre dois pontos, não há mais um caminho, mas um take em slow motion. Um momento de distorção do espaço e do tempo para que o universo renda as devidas saudações à sua passagem.

Nenhuma teoria ou conceito genético seria capaz de explicar a delicadeza de suas mãos. Seu toque brando e seguro faz com que sua presença jamais seja esquecida. Enquanto fala, o movimento de seus dedos parece reger o mundo ao seu redor. Dois minutos em discurso transformam todos em volta em impecável orquestra. Sua voz, melodia harmoniosa, acolhe, anima, consola e ao mesmo tempo, tira da inércia.

Não há Iracema, Vênus, Cleópatra, Julieta ou Dalila que se aproximem de sua presença. Para que ter apenas os lábios de mel, quando seus amores podem ser mais doces que o vinho? Para que contrapor-se a Marte se, mais que uma alegoria, a coexistência pacífica em um sistema solar há muito existe e por muito ainda sobreviverá? Para que força e poder reafirmados, quando aquilo que é dela faz-se presente sem anúncio? Para que o veneno que engana, quando da verdade de sua existência é que emana a certeza da alegria? Para que deixar que minhas forças sejam roubadas quando seria capaz de entregá-las voluntariamente?

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Da fragilidade e da redescoberta – II edição

Tava ali parado, esperava nada da vida. Naquele momento, muito menos. Dias iguais, noites idem. Coisa alguma no mundo poderia me despertar da inércia. Tolo. Era isso que eu pensava. Um simples descuido, deslize bobo e ela surgiu do inesperado. O que era casual, ou pelo menos, despretensioso, me tomou de repente. O que era aquilo, afinal? Era mesmo o que eu tanto havia esperado e, por isso, não acreditava mais ser possível?

 

Obviamente, minha estupidez habitual não me deixou perceber de cara. Só me dei conta quando, numa noite, algo me parecia faltar… horas e mais horas pensando… uma única imagem na cabeça. Desviei o pensamento, mas não havia porquê fazê-lo. Talvez a razão estivesse no fato de eu não acreditar nem um milímetro em novas paixões. Com outros, sim. Comigo?!… Nem que o céu se tornasse eterna e profundamente vermelho. Do desvio fui ao delírio. Lembrei-me do profundo castanho dos seus cabelos e da forma como eles voavam ao vento suave da orla. Revi sua pele morena que, ao sol de setembro, parecia tingida de canela. Seu cheiro de repente invadiu o quarto e quase holograficamente a vi. Minhas pernas tremeram e o chão parecia estar a quilômetros dos meus pés. Sua voz suave parecia vir de muito perto e já não pude deixar de notar o quanto meu coração estava acelerado. Segurei minhas mãos. Suavam frio como em febre alta.

 

Eu, tão seguro de mim, me vi novamente caído, cercado e sem saída. Tive medo. Por mais que eu dissesse que o passado era algo resolvido, não poderia esquecer que já sofri, e muito, por amores. Primeiro, os não correspondidos. Depois, os impossíveis. Por fim, os mal sucedidos. Mais medo. Na verdade, pavor. A cada lembrança de sua imagem, me via num paradoxo: me sentia seguro e ao mesmo tempo sem o mínimo controle de mim. As ondas de seus cabelos imitando as do mar me deixavam sem reação. O balanço suave de seu corpo caminhando me fazia sorrir. E suas curvas me conduziam sem escalas à felicidade.  Pensei em pedir socorro. Mas a quem?! E por que?! Medo, medo, medo. Era todo esse temor que fazia do céu uma prefiguração do purgatório. E se não fosse possível? E se ela não me notar como espero? E se eu não for aquilo que ela espera? Depois de um passado tão identificado pela perda, a insegurança era parte de mim.

 

Levou tanto tempo pra eu me sentir humano novamente que não podia acreditar. Aqueles sentimentos não faziam mais parte do meu pobre léxico, muito menos da minha medíocre existência fora do mundo real. Como foi bom me sentir vivo novamente. Pela paixão e pela limitação, era eu de novo… aquele que havia esquecido de si num súbito assustou-se com sua condição frágil e tangível. Cansei de resistir. O que virá? Importa menos o que, e mais a essência da descoberta, ou redescoberta, sendo mais exato. À dor ou à felicidade, é a isso que somos conduzidos. Me exponho pra me manter vivo, me mostro pra que não me esconda outra vez.

 

 

 

 

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