Category Archives: Música

Para o fim do inverno

vilarejo

Vilarejo

Marisa Monte

 

 

Há um vilarejo ali

Onde areja um vento bom

Porque apesar de ter chovido nesse inverno, o vento aqui é sempre bom. E, quando ele sopra, qualquer um se enche de vida.

Na varanda, quem descansa

Vê o horizonte deitar no chão

Porque apesar de quase não existirem mais varandas, descansar aqui é ver o horizonte deitar-se no chão, e se você olhar para o outro lado, ele se deita no mar.

 

Pra acalmar o coração

Porque apesar de nossa insegurança cotidiana, é quando você sai daqui que sobrevém a sensação de que o coração só se acalmará na volta.

Lá o mundo tem razão

Porque apesar de sermos essencialmente emocionais, não perdemos a razão por pouca coisa… talvez por carnavais e campeonatos de futebol, mas nunca por pouco.

Terra de heróis, lares de mãe

Porque apesar da realidade que embrutece, sorrimos e vivemos com um heroísmo latente, e nossos lares são nossos fortes de batalha.

Paraíso se mudou para lá

Porque apesar de um dia ele ter se localizado num tal Jardim do Éden, após a expulsão de nossos pais primitivos, para algum lugar o paraíso deveria ir… encontrou paragem certeira aqui.

 

 

Por cima das casas, cal

Frutas em qualquer quintal

Porque apesar de convivermos com o contínuo contraste e com a proximidade entre o luxo e as palafitas, em qualquer casa, os frutos da cidade são a sua essência instigante e única.

Peitos fartos, filhos fortes

Sonho semeando o mundo real

Porque apesar da vergonha que sentimos diante dos fatos diários, nossos peitos estão fartos da alegria de aqui termos nascido, e os filhos dessa terra não fogem à luta pelo que é seu.

 

Toda gente cabe lá

Palestina, Shangri-lá

Porque apesar de sermos provincianos, temos o bairrismo mais cosmopolita do país e toda gente cabe aqui até não sei quando, e pelas ruas você nunca deixará de encontrar alguém que caiu aqui e se apaixonou.

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Porque apesar de andarmos voando pelas ruas do centro, sempre encontramos tempo para uma olhada mais atenta às nossas belezas, sejam elas naturais, construídas ou humanas… não sei qual delas mais intensa.

 

 

Lá o tempo espera

Porque apesar do mundo, temos um ritmo próprio… nem acelerado, nem muito lento… temos nosso tempo.

Lá é primavera

Porque até no calor infernal de janeiro, nas chuvas de fevereiro ou nesse frio incomum de hoje as flores se abrem e a cidade é sempre perfumada com o mais original aroma carioca.

Portas e janelas ficam sempre abertas

Pra sorte entrar

Porque apesar dos cadeados, do crime organizado e do medo, há sempre uma fresta esperando para ser invadida pela sorte, pedindo para que ela ali faça morada e seja a blindagem das portas e das janelas.

 

 

Em todas as mesas, pão

Porque apesar da falta de oportunidades igualitárias não nos faltam formas justas de conseguirmos nosso pão quotidiano com um bom-humor singular.

Flores enfeitando

Os caminhos, os vestidos, os destinos

Porque apesar do vermelho-tijolo que toma conta de nossas encostas ainda temos um pedaço de floresta que se colore em qualquer dia do ano. Porque apesar de todos os dias termos uma reclamação, somos imensamente gratos pelo destino que aqui nos trouxe e mantém.

E essa canção

Porque apesar do cansaço e da contrariedade sempre temos uma canção para tudo, seja uma praia, uma rua, uma garota de um certo bairro, um dia bom ou o que nos der no coração.

 

 

Tem um verdadeiro amor

Para quando você for

Porque apesar do senso de autopreservação, quem entra aqui não sai sem receber aquilo que temos de melhor…

 

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Porque não há apesar em deixar o carro na garagem, optar por andar e sentir-se voando, entorpecido por uma atmosfera ímpar, digna de idealização.

Este texto foi originalmente postado no primeiro Texto e Contexto, no dia 06/07/06. Hoje, deixando mais um inverno para trás com uma manhã chuvosa, parei para ouvir “Vilarejo” e achei válido postá-lo novamente, com pequenas modificações.

Anúncios

13 comentários

Filed under Música

Michael Jackson e Daniel Azulay (?!)

Michael e Daniel

Aproveitando o momento oportuno, já que a mídia só fala no rei do pop, há pouco mais de vinte e quatro horas ido dessa para a melhor, faço do habitual post ficcional um momento confessional. Antes que mil coisas passem por sua cabeça (tarde demais), eu não sou e nem fui fã de Michael Jackson. Reconheço sim seu talento singular, ainda ouço algumas coisas do Jackson 5, mas o pop que ele fez não era tanto a minha praia.

 Não seria louco de negar, contudo, que minha geração ainda foi influenciada por sua música. Vindo por tabela, dos mais velhos, cresci sim escutando as faixas de Off the Wall (1979), mas minhas lembranças me levam ao lançamento de Thriller (1982). Minha mãe o comprou na época do lançamento e, confesso que dela herdei aquilo que hoje intitulo de “promiscuidade musical”. Perdoem-me aqueles que não gostam do termo, mas acho que ser eclético não descreve bem como ajo em relação à música. Aqueles que me conhecem sabem do que eu falo.

 A primeira e simples confissão está no inenarrável prazer que eu tinha de levar a agulha da vitrola, nessa época uma CCE que ficava linda com as luzes vermelhas acesas no escuro da sala à noite, até o final da última faixa do lado A desse disco. Talvez você ainda não entenda o porquê, mas compreenda a situação. Não tenho culpa, garanto, mas nasci sacana por natureza. E todo irmão sacana gosta mesmo é de espezinhar sua irmãzinha mais nova, coitada. A bendita música era a faixa-título do álbum recordista, e tinha exatos cinco minutos e cinquenta e sete segundos (naquela época, com trema). Eu, moleque que só, não queria ouvi-la, muito menos imitar sua coreografia, visto que eu era bem pequeno. Por mais que eu achasse o clip maneiríssimo, minha memória infantil não me permitiria tanto. Tudo que eu desejava era conseguir acertar a agulha no exato momento em que a macabra gargalhada dava fim à música. Não servia se fosse um segundo antes. E todo esse esforço era apenas pra ver minha irmã correndo pela casa, louca de medo do monstro que ria alto. Eu sei, eu sei, eu não prestava desde então. Mais legal ainda era se minha mãe estivesse perto. A pobre criança de cachinhos dourados grudava nas pernas de sua salvadora e gritava apavorada. Como diz o povo do Rappa, era “o silêncio que precede o esporro”, mas valia cada microssegundo da aventura. Foi mal, irmã, mas era bom demais.

 Passa o tempo, e estamos no dia das crianças de 198?, e eu com sete anos. Nessa época, morava em uma vila incomum em Campo Grande. Não aquele tipo de vila que é um corredor de casas, mas com uma geografia de condomínio, com ruas, praças, uma associação de moradores e até um rio. Eu me sentia sortudo por morar em frente ao campo de futebol, que hoje não existe mais, e à sede dessa associação. Nesse dia festivo, como de costume, rolou a festa das crianças e estávamos lá eu e minha irmã de cachos louros e olhos cor de mel (a natureza não é justa, insisto) – ela já sem medo do Michael, e eu dividido entre a timidez que me acompanha e a marra de artista que me persegue (acho que nada mudou, mas sigamos).

 Num dado momento, anunciaram as brincadeiras que dariam prêmios às crianças que as vencessem. Nem acredito que estou contando isso, mas o fato é que havia uma competição de quem dançava mais parecido com o Michael Jackson. Eu até queria que isso fosse uma baita mentira, mas não é. Depois de muita insistência, little Wellington foi convencido a participar da tortura (voz da timidez falando). Uma vez em cena, sob o som de Billie Jean, a chuva molha quem a ela se expõe. Garanto que até arrisquei um Moonwalker que ficou bem direitinho (voz da marra). Dançando bem ou mal, todas as mães estavam ali para torcer por seus filhos, a minha não seria diferente em corujice. Palmas para esse, palmas para aquele, disputa acirrada não sei contra quem, e little Wellington levou a parada.

 A brincadeira tinha sido concebida pra ter duas “categorias”, as dos micros de até 6 anos, e a dos crescidos com mais de 7, mas não havia meninos em número suficiente, o que nos fez todos dançarmos juntos. Eu, que estava longe de ser bobo, já sabia o que eram os super-prêmios: uma bola dente-de-leite para os menores de 6, e uma coleção de livros do Daniel Azulay para os maiores de 7. Na hora de me entregarem a merecida recompensa, me vem aquela destinada aos fedelhos. “Como assim?!”, pensava eu. Daquela bola eu já tinha, além do mais nunca fui tão apaixonado por futebol a ponto de querer duas dentes-de-leite. Se ainda fosse uma de basquete… Mais intenso do que isso é lembrar que minha paixão pelos livros sempre foi maior do que pela pelota.

Nunca fui bom de bola, em compensação argumento é algo que não costuma me faltar desde a infância, e em dois minutos estava lá o pirralho argumentando com a organização do evento que seu presente estava trocado. Para eles, criança gostava era de brinquedo. Eu, porém, queria os livros naquele momento. Era uma caixa com três volumes em capa dura, cada um deles com contos ilustrados, atividades de desenho e confecção de brinquedos, piadas e charadas. Um espetáculo. Enquanto não estava com eles em minhas mãos não sosseguei. E uma vez que já estavam, corri para casa, guardei na estante e voltei pra aproveitar a festa.

 Com a alegria renovada, e com os livros que me acompanharam durante uns bons anos (foram devidamente doados às crianças seguintes da família), naquele dia das crianças aprendi que com um pouco de sacrifício e de exposição, pode-se chegar onde se quer. Eu não queria de forma alguma pagar o mico de dançar na frente de todo mundo, mas já que eu fui quase empurrado, pelo menos tinha que ter a compensação de levar o que queria pra casa. Hoje, acho que só eu lembro a vergonha que senti, mas para ter histórias para contar é preciso recorrer ao inusitado, ao que está guardado, às lembranças remotas, sejam elas de medo, de alegria ou de conquistas que, para uma criança, eram verdadeiras batalhas com zumbis num cemitério de Thriller.

32 comentários

Filed under Confissões, Livros, Música

Apoteose

Estrear um novo blog. Querendo ou não, há algo de responsabilidade no ar. Depois de quase dois anos e meio sem publicar uma linha, resolvi por as mãos à obra novamente. Domínio registrado, ideia concebida, mas o mesmo problema se mostrava. Como começar? Todo mundo quer um início brilhante, um primeiro texto de impacto, algo que prenda o leitor e o faça voltar sempre que puder.

 

Mas sabemos que a vida não é brilhante todos os dias, há aqueles mais cinzentos, aqueles mais turvos. Venha então o início como deve ser, como hoje, como ontem… um dia normal. E não veja nada de pejorativo nisso. Quando digo normal, quero dizer “venha como vier e seja bem-vindo”.

 

Mas o que me tirou então da inércia? Aqueles que me conhecem devem pensar que foi o show do Los Hermanos anteontem na Apoteose. Depois de dois anos, o reencontro para uma apresentação preparada para fãs, com direito até a “Cher Antoine”, realmente não me deixaria da mesma forma que entrei ali. Mas a gênese do texto não estava ali. Uma hora e meia e um Kraftwerk depois, começava a ser concebida essa quase-epístola. Era real a presença do Radiohead aqui.

 

20722021-20722023-large

 

Como admirador tardio, confesso que durante muito tempo só ouvia “Creep”, “Fake Plastic Trees”, “High and Dry” (resgatada pelo Jamie Cullum à minha lista de mais ouvidas) e de repente uma ou outra faixa perdida. Até tentei ouvir algo mais, mas acredito no momento do encontro e ele ainda não havia acontecido. Passado um tempo, até conheci outras faixas e reconheci que eram boas, mesmo assim não ganhavam espaço no player.

 

Acho que e a história mudou e o tal encontro aconteceu quando resolvi comprar o ingresso pro show ainda na primeira semana de vendas. Leia isso: na primeira. Eu sequer sabia que os Hermanos abririam o show, mas já iria ver os caras de Oxford no palco. Como músico, tive a imensa curiosidade de saber como aquilo funcionaria na real. A tal história continuou em mudança quando resolvi ouvir mais músicas porque detesto ser pego de surpresa num show, sem conhecer metade do que se toca. Conclusão: In Rainbows e OK Computer já figuram no meu rol de álbuns brilhantes. Mas vamos ao show, que é o que interessa.

 

Durante um pouco mais de duas horas, Tom Yorke me provou que uma banda tida por muitos como deprê pode ter uma energia de palco fantástica. “15 Step” é perfeita para abrir um espetáculo como aquele. Enquanto vinte e quatro mil pessoas tentavam acompanhar a música, o verso que mais me representava era “Did the cat get your tongue?”. Como minha avó dizia, o gato tinha comido minha língua e eu estava speechless. Um Yorke impressionante com seus companheiros de palco chegaram sem saudar o público, até um simpático “Boa noite, nós somos o Radiohead” quebrar o gelo. E quem não sabia quem são eles? Tudo bem, ouvi a mesma tirada no último show do R.E.M. por aqui, em novembro passado.

 

“Airbag” em seguida mostrou que a noite não seria pouca coisa e “There there” me fez ter o primeiro momento de alumbramento com um palco impecável. No meio de um cubo iluminado, a banda fazia sua performance, com o telão ao fundo mostrando seus integrantes a partir de câmeras em posição pouco convencional. Não só a concepção do palco, mas seu funcionamento, impressionava a cada faixa. Um espetáculo de luz e efeitos: clima calmo, chuva, céu estrelado, planos móveis. A sensação que fosse desejada poderia ser conseguida com aqueles efeitos luminosos.

 

Para aqueles que, como eu, duvidavam, as faixas do Kid A funcionam ao vivo sim. “No surprises” fica excelente com o público cantando, e uma câmera em super close de Yorke com um perdido Jonny Greenwood ao fundo podem ter um efeito de imagem excelente. Para aqueles que esperavam tanto, “Paranoid Android” foi catártica, purificadora. Obviamente, não podemos deixar de notar uma cordialidade incomum, e a execução já esperada de “Creep” depois do show do México.

 

Diante do efeito causado, não posso esquecer de dedicar esse primeiro post ao Gustavo, há 12 anos meu irmão,o cara que me ensinou a gostar de Radiohead, que me fez comprar o ingresso ainda em dezembro, mas que ficou a 2200km da celebração esperada. Salve Picos, salve Rio, salve Oxforshire.

 

setlist-image-v1

18 comentários

Filed under Música