Michael Jackson e Daniel Azulay (?!)

Michael e Daniel

Aproveitando o momento oportuno, já que a mídia só fala no rei do pop, há pouco mais de vinte e quatro horas ido dessa para a melhor, faço do habitual post ficcional um momento confessional. Antes que mil coisas passem por sua cabeça (tarde demais), eu não sou e nem fui fã de Michael Jackson. Reconheço sim seu talento singular, ainda ouço algumas coisas do Jackson 5, mas o pop que ele fez não era tanto a minha praia.

 Não seria louco de negar, contudo, que minha geração ainda foi influenciada por sua música. Vindo por tabela, dos mais velhos, cresci sim escutando as faixas de Off the Wall (1979), mas minhas lembranças me levam ao lançamento de Thriller (1982). Minha mãe o comprou na época do lançamento e, confesso que dela herdei aquilo que hoje intitulo de “promiscuidade musical”. Perdoem-me aqueles que não gostam do termo, mas acho que ser eclético não descreve bem como ajo em relação à música. Aqueles que me conhecem sabem do que eu falo.

 A primeira e simples confissão está no inenarrável prazer que eu tinha de levar a agulha da vitrola, nessa época uma CCE que ficava linda com as luzes vermelhas acesas no escuro da sala à noite, até o final da última faixa do lado A desse disco. Talvez você ainda não entenda o porquê, mas compreenda a situação. Não tenho culpa, garanto, mas nasci sacana por natureza. E todo irmão sacana gosta mesmo é de espezinhar sua irmãzinha mais nova, coitada. A bendita música era a faixa-título do álbum recordista, e tinha exatos cinco minutos e cinquenta e sete segundos (naquela época, com trema). Eu, moleque que só, não queria ouvi-la, muito menos imitar sua coreografia, visto que eu era bem pequeno. Por mais que eu achasse o clip maneiríssimo, minha memória infantil não me permitiria tanto. Tudo que eu desejava era conseguir acertar a agulha no exato momento em que a macabra gargalhada dava fim à música. Não servia se fosse um segundo antes. E todo esse esforço era apenas pra ver minha irmã correndo pela casa, louca de medo do monstro que ria alto. Eu sei, eu sei, eu não prestava desde então. Mais legal ainda era se minha mãe estivesse perto. A pobre criança de cachinhos dourados grudava nas pernas de sua salvadora e gritava apavorada. Como diz o povo do Rappa, era “o silêncio que precede o esporro”, mas valia cada microssegundo da aventura. Foi mal, irmã, mas era bom demais.

 Passa o tempo, e estamos no dia das crianças de 198?, e eu com sete anos. Nessa época, morava em uma vila incomum em Campo Grande. Não aquele tipo de vila que é um corredor de casas, mas com uma geografia de condomínio, com ruas, praças, uma associação de moradores e até um rio. Eu me sentia sortudo por morar em frente ao campo de futebol, que hoje não existe mais, e à sede dessa associação. Nesse dia festivo, como de costume, rolou a festa das crianças e estávamos lá eu e minha irmã de cachos louros e olhos cor de mel (a natureza não é justa, insisto) – ela já sem medo do Michael, e eu dividido entre a timidez que me acompanha e a marra de artista que me persegue (acho que nada mudou, mas sigamos).

 Num dado momento, anunciaram as brincadeiras que dariam prêmios às crianças que as vencessem. Nem acredito que estou contando isso, mas o fato é que havia uma competição de quem dançava mais parecido com o Michael Jackson. Eu até queria que isso fosse uma baita mentira, mas não é. Depois de muita insistência, little Wellington foi convencido a participar da tortura (voz da timidez falando). Uma vez em cena, sob o som de Billie Jean, a chuva molha quem a ela se expõe. Garanto que até arrisquei um Moonwalker que ficou bem direitinho (voz da marra). Dançando bem ou mal, todas as mães estavam ali para torcer por seus filhos, a minha não seria diferente em corujice. Palmas para esse, palmas para aquele, disputa acirrada não sei contra quem, e little Wellington levou a parada.

 A brincadeira tinha sido concebida pra ter duas “categorias”, as dos micros de até 6 anos, e a dos crescidos com mais de 7, mas não havia meninos em número suficiente, o que nos fez todos dançarmos juntos. Eu, que estava longe de ser bobo, já sabia o que eram os super-prêmios: uma bola dente-de-leite para os menores de 6, e uma coleção de livros do Daniel Azulay para os maiores de 7. Na hora de me entregarem a merecida recompensa, me vem aquela destinada aos fedelhos. “Como assim?!”, pensava eu. Daquela bola eu já tinha, além do mais nunca fui tão apaixonado por futebol a ponto de querer duas dentes-de-leite. Se ainda fosse uma de basquete… Mais intenso do que isso é lembrar que minha paixão pelos livros sempre foi maior do que pela pelota.

Nunca fui bom de bola, em compensação argumento é algo que não costuma me faltar desde a infância, e em dois minutos estava lá o pirralho argumentando com a organização do evento que seu presente estava trocado. Para eles, criança gostava era de brinquedo. Eu, porém, queria os livros naquele momento. Era uma caixa com três volumes em capa dura, cada um deles com contos ilustrados, atividades de desenho e confecção de brinquedos, piadas e charadas. Um espetáculo. Enquanto não estava com eles em minhas mãos não sosseguei. E uma vez que já estavam, corri para casa, guardei na estante e voltei pra aproveitar a festa.

 Com a alegria renovada, e com os livros que me acompanharam durante uns bons anos (foram devidamente doados às crianças seguintes da família), naquele dia das crianças aprendi que com um pouco de sacrifício e de exposição, pode-se chegar onde se quer. Eu não queria de forma alguma pagar o mico de dançar na frente de todo mundo, mas já que eu fui quase empurrado, pelo menos tinha que ter a compensação de levar o que queria pra casa. Hoje, acho que só eu lembro a vergonha que senti, mas para ter histórias para contar é preciso recorrer ao inusitado, ao que está guardado, às lembranças remotas, sejam elas de medo, de alegria ou de conquistas que, para uma criança, eram verdadeiras batalhas com zumbis num cemitério de Thriller.

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32 comentários

Filed under Confissões, Livros, Música

32 responses to “Michael Jackson e Daniel Azulay (?!)

  1. Daniel

    hahaha sensacional colocar a risada pra assustar a sua irmã! discordância musical à parte, nem você resistiu à música do MJ hehe

    agora falando sério, a qualidade do seu texto é a prova de que diploma de jornalismo não é imprescindível… sua coluninha periódica aqui é muito superior a muitas que a gente lê por ai

    • Wellington Campos

      Fala aí, Daniel!
      Criança é fogo. Era impagável ver minha irmã assustada. Ah, e quem cresceu na década de 80 não conseguiu passar ileso ao MJ, posso não ter o hábito de ouvi-lo mas certamente as letras estão no ouvido.

      Falando sério digo eu. Vindo de você essa opinião, me sinto bem feliz.

      Abraço forte.

  2. Teresa

    Cara, gostei muito! não sabia desse blog! Cool!

  3. Cristiane

    Adorei! Fiquei imaginando as cenas… muito bom!

    Enquanto lia, estava pensando exatamente a mesma coisa que o Daniel comentou sobre o seu talento para escrever. Parabéns!

    Beijo grande, com muita saudade!
    Estou esperando a visita prometida…

  4. Ingrid

    Isso ai, Xu!
    “Keep on with the force don’t stop
    Don’t stop ‘til you get enough”… até conseguir os benditos livros do Daniel Azulay.

    Bjs e algodão doce pra vc!

  5. Vico

    Amigo, como é bom percorrer cada linha de seu texto. “Há tanta graça”, leveza e certeza. Nossa! me faz bem lê-los.

  6. Wellington Polido

    Grande xará! Parabéns pelo seu espaço…. nota 10!

    Eu fiquei imaginando você fazendo o passinho “moonwalker” dando aquele clássico gritinho (Aauuu) do Michael no final.

    Outra coisa…. naum acredito que vc largou de lado o dentão de leite…. era pra ficar com os dois prêmios!!! hehehe

    Abs!!

    • Wellington Campos

      Fala, xará!

      Obrigado por ter passado por esse espaço. Sinta-se à vontade em voltar quando quiser.

      Realmente, um moleque de 7 anos é capaz de fazer o passinho, gar o grito no final e ainda argumentar pra levar o prêmio que queria. Não dava pra levar os dois, era um ou outro. Como dentão de leite era algo que eu ganhava a cada Natal, aniversário, dia das crianças e todo o sem número de datas que as crianças ganham presentes, resolvi investir no “algodão doce pra você”. hahaha

      Abs.

  7. Flávia Quintaneira

    ñ sou tão velha qnto vc, mas tb tinha essa coleção d livros…Mas ñ ganhei numa condição tão macabra qnto a sua…Qnto aos seus dons d persuasão prefiro nem comentar…afinal, neh…Enfim…
    Mas gostei mt da história da sua infância…Dá um livro…Boa idéia(ideia) oq vc preferir!!!
    Bjins

    • Wellington Campos

      Essa coleção é show de bola. Ficou pras crianças que chegaram depois de mim. Macabra?! Foi engraçadíssima mesmo…

      Ri muito com o seu “prefiro nem comentar.. afinal, neh”.

      Beijo grande.

  8. PC

    Grande Well! Adorei o texto! Concordo com o Daniel, quando diz: “… seu texto é a prova de que diploma de jornalismo não é imprescindível…”. Vejo que os livrinhos da infância não foram em vão. Rssss. Ah! Coitada da sua irmãzinha! KKKKK!
    Quanto ao Michael, não posso deixar de manifestar aqui minha tristeza pelo ocorrido, por dois motivos: Primeiro, pela opção de vida dele (cirurgias plásticas, “bolhas”, embranquecimento, etc.) . E segundo, porque senti que uma pequena parte de minha juventude estava “passando desta pra melhor”. Curti tanto o vinil Thriller, que passei a observar as músicas dos Jacksons five, e as demais composições do Michael. Confesso que foi difícil de acreditar. É isso! Um grande abraço.

    • Wellington Campos

      Grande PC!
      Aqueles livrinhos foram sensacionais. Uma grande dose de criatividade era oferecida ali, afinal o Azulay mandava bem nas charadas, brinquedos e etc. O que me deixa mais feliz com esses comentários do tipo “concordo com o Daniel” está no fato de ele ser um jornalista, e um daqueles em quem confio (afinal ele foi meu aluno hahaha).
      Quanto à loirinha, ela sobreviveu bem ao trauma… 😉

      Todos nós que gostamos de música, e que vivemos na década de 80, sentimos realmente que o pop perdeu seu grande nome. Hoje temos uma verdadeira enxurrada pop. Mas se existe espaço na mídia para Rihannas, Brothers de várias famílias e todo tipo de pop que (não) ouvimos mas que fazem nossos sucessores dançarem, deve-se isso à genialidade de MJ, que transformou o estilo então visto como secundário em campeão de vendas, e que campeão, diga-se de passagem.

      Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

      Abraço forte!

  9. Keka

    Tadinha da nossa irmã… =(

    • Wellington Campos

      Ah, não seja tão solidária. Você adoraria ver a cena. Ou melhor, será que você correria com o mesmo medo da voz do terror? =P

      Beijo grande.

  10. Rosane

    Irmão, você me fez voltar no tempo! Apesar de eu não zoar a “cachinhos dourados”, confesso que morria de rir quando você fazia suas traquinagens com ela. Depois dessa ela vai querer me matar, mas já que fez suas confissões faço também aqui as minhas.
    Quanto à sua cara de pau num palco não parou por aí , a turma do Balão Mágico que o diga! Parabéns, pois você continua esbanjando talento! Te amo! Bjs.

    • Wellington Campos

      É… ainda bem que não há registros dessa época em que os palcos mirins contariam minha história. Mas “A Turma do Balão Mágico” fica para um próximo post, quando eu estiver disposto a uma nova sessão de confissões. hahaha

      Te amo.

      Beijo

  11. Rafael Monclar

    Fala rapaz,

    mt bom o texto! Vc fica com vontade de ler tudo! Eu tb não me considero fã de Michael Jackson, mas as músicas dos dois álbuns que vc mencionou e as do Jackson 5 volta e meia ressoam nas minhas lembranças.

    []ão…

    • Wellington Campos

      E aí, Rafael!

      Que bom ter aparecido por aqui. Espero que queira voltar nos próximos textos.

      Abração pra você também.

  12. Rachel

    Oi Wellington!
    Adorei seu blog! Eu tinha uma vitrolinha vermelha que eu colocava um soldadinho de chumbo sobre meus discos amerelos ou rosas enquanto eu escutava as historinhas…e ficava lá vendo ele rodando enquanto o lobo mau caçava a chapeuzinho… bom, minhas aventuras (??) fraternais qqr dia eu te conto. bjs

    • Wellington Campos

      Olá, Rachel!

      Lá em casa, minha irmã tinha uma vitrolinha daquelas de maleta que ela adorava. Eu desde cedo disputei o “aparelho de som” com a minha mãe.
      Também gostava muito das histórias em disco, minha preferida era a da D. Baratinha… hahahaha… quanto aos bonecos em cima dos discos, bem, se eu os pusesse, minha mãe não me deixaria mais disputar com ela a posse do som… kkkkk… então eu só usava aquele de montar que vinha nos discos do Balão Mágico, feitos exatamente pra deixar em cima do disco em movimento.

      Obrigado pela visita. Esteja à vontade para voltar e participar.

      Beijo grande.

  13. Daniel Junior

    Olá Wellington. Vim retribuir a visita e agradecer as excelentes palavras a respeito do meu “umirde” blog. Muito obrigado e um grande abraço!

  14. Marília Monteiro

    Olá Sr. autor,
    Engraçado, eu também nunca curti o Michael Jackson, mas sabe… quando me contaram que ele morreu eu fiquei com a mesma sensação de quando meus pais me chamaram na sala, sentaram ao meu lado e contaram que o Papai Noel não existia (ao menos daquele jeito romantico que tinham me ensinado…). Não é questão de gostar ou não gostar… É que sempre esteve lá… Cresci (literalmente falando…) ouvindo ou ao menos ouvindo falar dele… A ausência me causou sensação de estranheza…
    E agora lendo também relembrei a infância, lugares onde estive, pessoas que fizeram parte da minha vida, a implicância dos meus irmãos (aliás, muito feio isso…)… Acho que é legal rever algumas situações da vida.
    Grata pela viagem no tempo,
    Bjos.

    • Wellington Campos

      Olá, senhorita.
      Seus comentários aqui são sempre bem vindos. Concordo que haja mesmo essa sensação de estranheza, talvez já a tenhamos experimentados com a morte de outras figuras.

      Ah, não diga que minha implicância era feia… o que podemos cobrar de uma criança de 4 anos?! hahahahaha

      Beijo grande.

  15. Marília Monteiro

    Sr. autor Docinho,
    Tá ok, exagero cobrar tanto de um menino de quatro anos… Principalmente depois que o menino compartilhou esse “micão”! O legal de ser criança é não ter noção de ridículo… Eu não tinha… Nem sei se tenho agora…

    Ah, o Docinho é culpa da Waleska… Foi ela quem me lembrou disso semana passada.
    Bjos.

    • Wellington Campos

      Novo “olá”, senhorita!

      O legal de ser adulto é lembrar que o legal de ser criança é não ter noção do ridículo, e resolver jogá-la fora de vez em quando. A opção é sempre uma bênção.

      Não digamos que o “Docinho” é culpa dela… de repente, autoria… hahaha

      Beijo grande.

  16. finalmente atualizado!
    alguém me disse que michael jackson não morreu…

    um abraço!

  17. Ola Wellington!
    Adorei seu texto.
    Daniel Azulay e Michale Jackson foram dois icones na minha infância.Porém tão diferentes..r.srsrs
    Obrigada pelo comentário na Coluna Rouge no blog do Argônio.
    Abs!

    Carol Sakurá
    http://lepoeteenfleur.blogspot.com/

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