Monthly Archives: Março 2009

Sobre o valor

“One too many goals

That measure out your worth

To seek your weight in gold.”

The Next Time Around – Little Joy

 

 

 

O que é suficiente para medir o seu valor? Já ouvi muitos dizerem que valem o quanto têm, outros preferem valer aquilo que são. Há aqueles, contudo, que insistem em dizer que valem aquilo que sabem. Talvez eu tenha começado esse texto de forma equivocada. Talvez seja mais correto pensar em “O que é o valor do homem?” ou “O que é capaz de dar valor a uma pessoa?”.

 

Acho que se formos procurar com atenção pelo passado remoto, lá na Grécia antiga alguém já dizia que uns valiam mais que outros. Se sou instruído, valho mais. Se tenho bens, ainda mais. Não quero ficar aqui procurando as razões ou sementes sociais desse tipo de julgamento. Quero é deixar uma pulga atrás das orelhas, encostar o dedo nas feridas das nossas hipocrisias que nos estabelecem escalas de valores, e ainda questionar se isso tudo é objetivo ou apenas social.

 

Quando somos pequenos, ouvimos dos mais velhos que devemos ser bons, obedientes, solícitos e, de preferência, agradáveis às pessoas. Tudo isso pode se tornar uma grande confusão ao crescermos, afinal nessa fase temos que aprender a viver num mundo competitivo. E o que isto tem a ver com os conselhos da vovó? Se competimos, é porque tentamos fazer valer nossa voz, ganhar nosso espaço e ter reconhecimento. Para isso será impossível evitar o embate de vontades, o conflito real de interesses. Nem todos foram criados sob as mesmas regras familiares que nós, assim, os conceitos de bondade, solicitude e cordialidade assumem as mais diversas conotações para as pessoas com quem convivemos. Nesse cenário, será impossível ser agradável como a mamãe gostaria.

 

Espera aí, leitor, a mamãe gosta que você seja agradável, mas não que você seja um merda, um loser. Você tem que ser o fodão. Desculpem-me aqueles que se chocam com as palavras, mas elas não são minhas. Dr. Francisco D. da Veiga, em seu curioso O Aprendiz do Desejo, nos apresenta o dilema do fodão-merda, e foi daí que vieram as expressões de seu choque. Trazendo a uma linguagem mais branda – afinal, quem sou eu pra desobedecer às matriarcas e bancar o mal-educado? – você precisa ser forte, bom, bem-sucedido, esperto, bonito, inteligente, ou como sugeriria Darwin, o mais adaptado da sua espécie. Além disso, você precisa conquistar, pois um homem se mede por suas conquistas.

 

E voltamos ao ponto inicial, “um homem se mede por…”. Gastamos muito tempo de nossos dias pensando em como somos vistos, se somos respeitados, se nosso trabalho é reconhecido ou se as pessoas enxergam o quanto tivemos que dar duro pra chegarmos onde chegamos. Ué, o caminho que escolhemos não deveria ser pessoal? Então por que eu fico observando o que os outros dizem da minha trajetória? É isso! Tenho a impressão de que muito poucas vezes nos importamos realmente com o que fazemos ou o que pensamos a respeito de nós mesmos. Noto que faz parte do comportamento comum fazer as coisas esperando reconhecimento. Não como o interesseiro, mas como quem quer ser aceito e bem visto.

 

Eu não seria capaz de incitar, com isso, um comportamento de isolamento. Muito pelo contrário, talvez seja necessário conhecer-se para conviver de forma mais branda consigo e com o outro, o temível “outro”.

 

Já que passamos por essa história de trajetórias, também questiono o fato de sempre ter que saber onde o caminho vai levar. Obviamente todo caminho leva a algum lugar, mas as pessoas insistem em saber onde você quer chegar. Então, onde fica o prazer do caminho em si quando só se pensa na chegada? E não é possível estar realizado durante uma caminhada? Duvido que não. Pense na simples metáfora de duas cidades que distam mil quilômetros… não sou capaz de só enxergar partida e chegada, há mil quilômetros a serem descobertos e aproveitados, dezenas de cidadelas e lugares ainda não vistos. Pessoas diferentes e hábitos absolutamente estranhos ao meu mundo. Definitivamente, o destino final começa ao largar o ponto de origem.

 

Mais uma vez retomando a questão central, ainda não entendo por que eu teria mais valor do que uma criança numa rua de Mumbai. Ou por que o presidente da empresa em que eu trabalho vale mais que o bilheteiro do cinema a que vou toda semana. É claro em meu raciocínio que os bens passam, os cargos são substituídos, o corpo se desgasta e, com ele, o cérebro e boa parte do conhecimento adquirido. Indo um pouco mais longe, até as convicções são passíveis de mudança.

 

Peço sinceras desculpas a quem achou que eu abordaria o “viva à sua maneira, não perca a estribeira, saiba do seu valor” (deveria um autor ficar preso àquilo que agrada seus leitores?), mas acho mais honesto tentar fazer você pensar que essa história de ter um valor é, pelo menos, um pouco descabida. Com o passar do tempo, muito do que vemos e temos hoje ruirá. E aí eu pergunto: O que vai valer nesse momento?

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Apoteose

Estrear um novo blog. Querendo ou não, há algo de responsabilidade no ar. Depois de quase dois anos e meio sem publicar uma linha, resolvi por as mãos à obra novamente. Domínio registrado, ideia concebida, mas o mesmo problema se mostrava. Como começar? Todo mundo quer um início brilhante, um primeiro texto de impacto, algo que prenda o leitor e o faça voltar sempre que puder.

 

Mas sabemos que a vida não é brilhante todos os dias, há aqueles mais cinzentos, aqueles mais turvos. Venha então o início como deve ser, como hoje, como ontem… um dia normal. E não veja nada de pejorativo nisso. Quando digo normal, quero dizer “venha como vier e seja bem-vindo”.

 

Mas o que me tirou então da inércia? Aqueles que me conhecem devem pensar que foi o show do Los Hermanos anteontem na Apoteose. Depois de dois anos, o reencontro para uma apresentação preparada para fãs, com direito até a “Cher Antoine”, realmente não me deixaria da mesma forma que entrei ali. Mas a gênese do texto não estava ali. Uma hora e meia e um Kraftwerk depois, começava a ser concebida essa quase-epístola. Era real a presença do Radiohead aqui.

 

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Como admirador tardio, confesso que durante muito tempo só ouvia “Creep”, “Fake Plastic Trees”, “High and Dry” (resgatada pelo Jamie Cullum à minha lista de mais ouvidas) e de repente uma ou outra faixa perdida. Até tentei ouvir algo mais, mas acredito no momento do encontro e ele ainda não havia acontecido. Passado um tempo, até conheci outras faixas e reconheci que eram boas, mesmo assim não ganhavam espaço no player.

 

Acho que e a história mudou e o tal encontro aconteceu quando resolvi comprar o ingresso pro show ainda na primeira semana de vendas. Leia isso: na primeira. Eu sequer sabia que os Hermanos abririam o show, mas já iria ver os caras de Oxford no palco. Como músico, tive a imensa curiosidade de saber como aquilo funcionaria na real. A tal história continuou em mudança quando resolvi ouvir mais músicas porque detesto ser pego de surpresa num show, sem conhecer metade do que se toca. Conclusão: In Rainbows e OK Computer já figuram no meu rol de álbuns brilhantes. Mas vamos ao show, que é o que interessa.

 

Durante um pouco mais de duas horas, Tom Yorke me provou que uma banda tida por muitos como deprê pode ter uma energia de palco fantástica. “15 Step” é perfeita para abrir um espetáculo como aquele. Enquanto vinte e quatro mil pessoas tentavam acompanhar a música, o verso que mais me representava era “Did the cat get your tongue?”. Como minha avó dizia, o gato tinha comido minha língua e eu estava speechless. Um Yorke impressionante com seus companheiros de palco chegaram sem saudar o público, até um simpático “Boa noite, nós somos o Radiohead” quebrar o gelo. E quem não sabia quem são eles? Tudo bem, ouvi a mesma tirada no último show do R.E.M. por aqui, em novembro passado.

 

“Airbag” em seguida mostrou que a noite não seria pouca coisa e “There there” me fez ter o primeiro momento de alumbramento com um palco impecável. No meio de um cubo iluminado, a banda fazia sua performance, com o telão ao fundo mostrando seus integrantes a partir de câmeras em posição pouco convencional. Não só a concepção do palco, mas seu funcionamento, impressionava a cada faixa. Um espetáculo de luz e efeitos: clima calmo, chuva, céu estrelado, planos móveis. A sensação que fosse desejada poderia ser conseguida com aqueles efeitos luminosos.

 

Para aqueles que, como eu, duvidavam, as faixas do Kid A funcionam ao vivo sim. “No surprises” fica excelente com o público cantando, e uma câmera em super close de Yorke com um perdido Jonny Greenwood ao fundo podem ter um efeito de imagem excelente. Para aqueles que esperavam tanto, “Paranoid Android” foi catártica, purificadora. Obviamente, não podemos deixar de notar uma cordialidade incomum, e a execução já esperada de “Creep” depois do show do México.

 

Diante do efeito causado, não posso esquecer de dedicar esse primeiro post ao Gustavo, há 12 anos meu irmão,o cara que me ensinou a gostar de Radiohead, que me fez comprar o ingresso ainda em dezembro, mas que ficou a 2200km da celebração esperada. Salve Picos, salve Rio, salve Oxforshire.

 

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